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POEMA: |
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A
convite de Rodrigo
Um primo muito legal Viajei quase três horas Com destino à capital Para ir até Olinda Conhecer seu carnaval. No Sábado de Zé Pereira (Lá se diz Sábado do Galo) Cheguei bem cedo no TIP E fiquei a esperá-lo E andei tanto lhe esperando Que no pé ganhei um calo. Quando o primo apareceu Já chegou agoniado Dizendo: - vamos, Genésio Que a gente está atrasado O Galo está já saindo - Eita folião danado! E ele tinha razão O galo não demorou É que na pressa, meu primo Num batente tropeçou Bateu com a testa no chão E nela um galo ganhou. Nós seguimos de metrô Para o centro da cidade Os vagões foram se enchendo De foliões de verdade Para chegar lá no Galo Era grande a ansiedade. Tinha gente pra dedéu Em tudo quanto é lugar Tinha até dentro do rio Você pode acreditar Nas ruas, um imprensado No céu, um sol de lascar. Já perto das duas horas O Galo fervia ainda Então meu primo Rodrigo Encontrou-se com Lucinda Que chamou a gente para Ir brincar lá em Olinda. E do Galo pra Olinda Seguimos num desadoro Lucinda deixou o carro Lá perto do Giradouro A essa altura meu calo Já tinha largado o couro. Andamos quase uma légua Para chegar na folia E eu já de pernas bambas Sem carga na bateria Mas depois de um retetéu Recobrei a energia. Subi e desci ladeiras Sem pagar qualquer promessa Muitas vezes não sabia Se ía por essa ou essa Mas seja qual fosse a escolha Sempre tinha gente à beça. De vez em quando um batuque É que puxava a folia O povo manifestado Os batuqueiros seguia Era um xangô arretado Que até de longe se ouvia. Para cortar o caminho Entre becos me joguei Mas com o fedor de mijo Até mal quase passei Ô imundície da gota! Por pouco não vomitei. Segui o Boi da Macuca Com Benedito no fole A essas alturas eu Já estava todo mole Pois cada latinha era Tomada de um só gole. Quando passou Flor da Lira Eu quase me desmantelo Inventei de dar em cima Da garota do flabelo Mas seu noivo chegou junto E eu quase fiquei banguelo. Na Rua Treze de Maio Eu gritei: Ó, Virgem Santa! Eu duvido outro lugar Ter tanta coca que é fanta Lá, a turma do arco-íris Sua bandeira levanta. Lá é grande o desmantelo É dantesco o alvoroço Naquela aglomeração Vê-se moça e vê-se moço Das frutas as mais diversas Chupando até o caroço. Às vezes pensava estar Em Sodoma ou em Gomorra Ao ver o “Segurucu” Ou “Diz que Me Ama, Porra!” Quem não agüentar rojão Pra bem longe deles corra. Corra também do Patusco Se afaste do D´Breck Se duvidar do que digo Com os próprios olhos cheque Fuja de lá se benzendo Ou também vire moleque. Porque a troça é Ceroula Descobri naquele dia Pois entrei no rugerruge Vestido, mas na agonia Eu saí só de cueca Mesmo assim quase a perdia. Faltou chão e faltou fôlego Cheguei até flutuar Quando chegou no Amparo Fiquei suspenso no ar Juro que pensei que o mundo Estava pra se acabar. Lá na Bodega de Véio Eu jantei pão com salame Só pensando no cuscuz Em macaxeira e inhame Mas primo disse:- encha o bucho Lamba o beiço e não reclame Tudo isso foi fichinha É verdade, meu amigo Porque lá nos Quatro Cantos Enfrentei maior perigo É que o Tarado da Sé Quase acabava comigo. Lá ia eu todo ancho Dentro da troça animada Quando a calunga girou E me deu uma mãozada Que eu fiquei zonzo, zonzo Com aquela chapuletada. Anoiteceu e então Pensei que teria fim Esta cruel maratona Mas Rodrigo disse assim: Vamos lá pro Guadalupe Pra saída do Alafim. E depois do Alafim Sonhava eu com a pernoite Mas fomos pro Bonsucesso Enfrentar um novo açoite Na saída do boneco O Homem da Meia Noite. A Cidade Alta inteira Num só dia eu conheci E já nascendo o domingo Alegrei-me quando eu vi Rodrigo entregar os pontos Na sede do Cariri. Mais de cinco da manhã Foi que em casa chegamos Depois de tanta folia Rodrigo e eu apagamos Às onze horas, o primo Acordou dizendo: - Vamos? - Vamos pra onde, sujeito Será que dei na mãe minha? Disse ele: - pra Olinda Nossa turma está todinha Nos esperando na troça Tanajura com Farinha. É capaz de já estarem No Mosteiro de São Bento Respondi-lhe: - Pode ir Outra dessa eu não agüento Vou ficar aqui sozinho Nas pernas passando ungüento. Quando passou o cansaço Pra meu lugar eu voltei O resto do carnaval Só descansando passei Ouvindo “pa-pa-pa-pa...” Por muitos dias fiquei. E agora, tempos depois Lembranças chegam na mente Desse carnaval tão louco Tão típico, tão diferente Que por mim não vou perder Mais nenhum daqui pra frente. FIM |
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